Frete no orçamento de obras: a brita mais barata continua barata quando chega ao canteiro?

Você pede duas cotações de brita. Uma vem por R$ 70,00 a tonelada, outra por R$ 80,00. A primeira parece melhor até alguém perguntar onde fica a pedreira e quem paga o transporte. Nesse momento, a comparação muda: o que interessa à obra é o custo de receber o material nas condições em que ele será utilizado.
Frete não é um detalhe para preencher depois. Em materiais transportados em grandes quantidades, a distância pode mudar a escolha do fornecedor. A metodologia do SICRO, disponibilizada pelo DNIT, é uma referência importante para entender a relação entre origem, quantidade, percurso e custo em obras de infraestrutura de transportes.
Vamos comparar duas origens de brita, calcular o momento de transporte e mostrar como o fornecedor mais barato na saída pode ficar mais caro na chegada. Os valores são exclusivamente didáticos, sem código de composição oficial, sem data-base de mercado e sem BDI. O objetivo é aprender a montar a comparação, não recomendar um preço para sua obra.
Compare a mesma entrega
Antes de calcular, confirme se as propostas descrevem o mesmo produto. Duas britas com granulometrias diferentes não se tornam equivalentes porque ambas aparecem na cotação como “brita”. A comparação começa na especificação e continua na quantidade, na unidade e nas condições de fornecimento.
Depois, defina o ponto da entrega. Uma proposta pode incluir transporte até a entrada do empreendimento; outra, descarga na área de armazenamento. Se o caminhão não consegue acessar o local, ainda pode haver movimentação interna. Não é necessário criar uma parcela para cada situação imaginável, mas é necessário identificar as operações que a obra realmente exige.
No nosso exemplo, os dois fornecedores atendem à mesma especificação, entregam a mesma quantidade e têm condições comerciais equivalentes. Vamos admitir que a carga e a descarga estejam resolvidas nas premissas, sem custos adicionais na comparação. Essa simplificação permite observar apenas o efeito do preço na origem e do transporte.
Na obra real, deixe essa convenção por escrito. A frase “preço com entrega” precisa indicar o endereço, a quantidade mínima, o tipo de veículo e o que está incluído. Sem isso, você pode comparar uma proposta completa com outra que depende de operações ainda não orçadas.
Duas pedreiras, uma escolha
Considere uma necessidade de 300 toneladas. A pedreira A vende por R$ 70,00/t e fica a 40 km do destino. A pedreira B vende por R$ 80,00/t e fica a 10 km. Para ambas, adotaremos um custo didático de transporte de R$ 0,60 por tonelada-quilômetro.
Parcela | Pedreira A | Pedreira B |
Preço na origem | R$ 70,00/t | R$ 80,00/t |
Distância considerada | 40 km | 10 km |
Transporte por tonelada | R$ 24,00/t | R$ 6,00/t |
Custo entregue por tonelada | R$ 94,00/t | R$ 86,00/t |
Custo entregue de 300 t | R$ 28.200,00 | R$ 25.800,00 |
Fonte: elaboração própria. Hipóteses didáticas de produto e entrega equivalentes; custo linear de transporte de R$ 0,60/t.km, sem BDI e sem parcelas adicionais.
A pedreira A economiza R$ 10,00 em cada tonelada de material, mas exige R$ 18,00 a mais por tonelada em transporte. O saldo é R$ 8,00/t contra ela. Para as 300 toneladas, a diferença chega a R$ 2.400,00.
Não há contradição: a primeira cotação é mais barata na origem e mais cara no destino. O erro seria escolher pelo primeiro número e depois tratar o frete como uma despesa inevitável, fora da comparação. A decisão de compra já deveria considerar o custo completo das alternativas tecnicamente válidas.
O que significa t.km
A unidade tonelada-quilômetro combina massa e distância. Se você transporta 300 toneladas por 40 km, o momento de transporte é 12.000 t.km. Multiplicado pelos R$ 0,60/t.km do exemplo, resulta em R$ 7.200,00 de transporte.
Essa conta não significa que um caminhão leve 300 toneladas em uma viagem. A quantidade representa o total transportado ao longo das entregas. O cálculo do número de viagens e da capacidade do veículo é outra verificação, necessária para saber se a operação prevista é viável.
Também não acrescente a volta automaticamente ao quantitativo da distância. É necessário ler como o custo unitário da referência ou a proposta comercial trata o ciclo do veículo. Somar ida e volta ao momento de transporte e usar uma tarifa que já remunera o ciclo pode duplicar parte do custo.
No nosso modelo, os R$ 0,60/t.km já representam o custo adotado para a operação descrita. Não faremos uma segunda conta de combustível, motorista ou retorno. Se essas despesas fossem acrescentadas separadamente, o modelo precisaria demonstrar que não estavam incluídas no valor inicial.
Quando a distância vira a decisão
É possível calcular a distância de equilíbrio entre as propostas. A pedreira A tem uma vantagem de R$ 10,00/t no material. Com transporte de R$ 0,60/t.km, essa vantagem suporta aproximadamente 16,67 km adicionais de percurso.
A conta é R$ 10,00/t ÷ R$ 0,60/t.km = 16,67 km. Como a pedreira B está a 10 km, a A empataria com ela a aproximadamente 26,67 km. Aos 40 km considerados no exemplo, a distância ultrapassa o ponto de equilíbrio.
Esse resultado só vale dentro das premissas. Se a tarifa mudar com o tipo de via, se houver cobrança mínima por viagem ou se um fornecedor oferecer descarga incluída, a equação precisa incorporar essas diferenças. Uma conta simples ajuda a entender a sensibilidade, mas não substitui a cotação da operação real.
O ganho prático é saber o que perguntar. Em vez de negociar apenas R$ 1,00 no preço da tonelada, você pode investigar uma origem próxima, uma condição de entrega melhor ou um percurso viável mais curto. No exemplo, o custo estava sendo decidido principalmente pela logística.
DMT não é um número escolhido
Quando existem vários destinos, pode ser necessário trabalhar com uma distância média de transporte. Imagine 100 toneladas entregues a 10 km e 200 toneladas a 25 km, partindo da mesma origem. O momento total seria 1.000 + 5.000 = 6.000 t.km.
A distância média ponderada seria 6.000 t.km ÷ 300 t = 20 km. Fazer a média simples entre 10 e 25 km daria 17,5 km, ignorando que a maior parte da massa percorre o trecho mais longo. Com a tarifa didática de R$ 0,60/t.km, esse erro reduziria o transporte calculado em R$ 450,00.
Fonte: elaboração própria. Exemplo de ponderação por massa, sem representar uma memória de transporte de projeto específico.
No orçamento, guarde os quantitativos por destino e a identificação dos percursos. O mapa ajuda, mas uma linha reta entre dois pontos não representa necessariamente o caminho do caminhão. Acesso, restrições e condição da via precisam ser compatíveis com a operação considerada.
Para seguir a metodologia de uma referência oficial, consulte seus manuais e a descrição da composição escolhida. Os manuais atuais do SICRO organizam os conceitos do sistema. Não use o exemplo deste artigo como substituto das regras de uma composição específica.
Metro cúbico não vira tonelada sozinho
Se o projeto fornece 200 m³ e o transporte é calculado em toneladas, falta uma informação: a massa por volume na condição considerada. Vamos admitir, apenas para a conta, uma massa específica aparente de 1,50 t/m³. A conversão produziria 300 toneladas.
Com 1,70 t/m³, seriam 340 toneladas. Na distância de 40 km e na tarifa didática de R$ 0,60/t.km, o transporte passaria de R$ 7.200,00 para R$ 8.160,00. São R$ 960,00 de diferença provocados por uma hipótese de conversão, antes de alterar qualquer preço unitário.
Por isso, não copie uma densidade apenas porque funcionou em outra planilha. A memória precisa indicar qual material e qual condição volumétrica estão sendo representados. Volume solto, volume compactado e volume medido em projeto não devem ser tratados como equivalentes sem a conversão técnica correspondente.
Também não aplique empolamento como multiplicador universal da massa. Ao passar de volume para massa, as grandezas e os fatores precisam manter coerência entre si. Usar volume já corrigido e repetir uma correção destinada à mesma mudança de condição pode aumentar artificialmente o quantitativo.
A referência precisa ter uma origem
O SICRO ajuda a organizar custos de infraestrutura de transportes, mas a existência de uma referência não elimina a necessidade de localizar a fonte do material. O Acórdão 800/2021 do TCU registra a importância da coerência entre os locais das cotações dos insumos e os locais adotados nos transportes.
No exemplo, não faria sentido usar o preço de R$ 70,00/t da pedreira A e a distância de 10 km da pedreira B. Essa combinação produziria R$ 76,00/t, uma alternativa que nenhum dos fornecedores ofereceu. A conta pareceria econômica, mas representaria uma origem fictícia.
O cuidado também vale quando a cotação já considera entrega. Se o fornecedor oferece R$ 86,00/t no canteiro, adicionar mais R$ 6,00/t de frete para o mesmo percurso cobraria a operação duas vezes. Antes de criar um item de transporte, confira o alcance do preço do material.
Esse raciocínio complementa o uso das referências de orçamento previstas no art. 23 da Lei 14.133/2021, que distingue SICRO para infraestrutura de transportes e SINAPI para as demais obras e serviços de engenharia. A escolha do sistema não autoriza misturar condições incompatíveis para obter o menor número.
Frete entra antes do BDI
No nosso exemplo, R$ 25.800,00 representam o custo direto de material e transporte da alternativa B. Se essa parcela integrar uma contratação de execução e adotarmos BDI didático de 25%, o preço correspondente seria R$ 32.250,00. A alternativa A passaria de R$ 28.200,00 de custo para R$ 35.250,00 de preço.
A diferença de R$ 2.400,00 em custo se tornaria R$ 3.000,00 em preço, usando o mesmo fator nas duas alternativas. Isso mostra por que reduzir uma despesa logística também altera o valor final. Não significa que 25% seja o BDI correto para qualquer fornecimento ou contrato.
A definição depende do objeto e do tratamento aplicável à parcela. Para entender a formação geral do preço, consulte o texto sobre custo e preço de obra, com o BDI na prática. A calculadora de BDI ajuda a testar a conta depois que a base direta está coerente.
Armadilhas comuns
Comparar origem com entrega. R$ 70,00/t na pedreira e R$ 86,00/t no canteiro descrevem condições diferentes. Complete a primeira alternativa antes de decidir. A comparação só fica útil quando produto, quantidade e ponto de entrega são equivalentes.
Misturar preço e percurso de fornecedores distintos. No exemplo, combinar o material da A com a distância da B fabricou um custo de R$ 76,00/t. Mantenha cada preço ligado à origem que o produziu. Uma memória por alternativa torna essa conferência simples.
Adicionar frete já incluído. Uma proposta com entrega não precisa receber novamente o custo do mesmo percurso. Pergunte o que o fornecedor inclui e documente a resposta. Se houver transporte interno adicional, descreva essa operação separadamente, sem confundi-la com a entrega já paga.
Converter unidades sem premissa. O projeto pode estar em m³, a compra em toneladas e a composição em t.km. Cada mudança precisa de uma relação explícita. No exemplo, a escolha entre 1,50 e 1,70 t/m³ alterou o transporte em R$ 960,00.
Tratar a tarifa didática como composição oficial. Os R$ 0,60/t.km foram escolhidos para explicar a lógica. Não têm UF, mês de referência, equipamento ou regime de encargos de um banco oficial. Para orçar, substitua essa hipótese pela referência ou cotação compatível com a operação.
Uma conferência que vale o tempo
Antes de revisar dezenas de materiais pequenos, identifique quais movimentam mais massa e percorrem maiores distâncias. Você pode usar a curva ABC da planilha orçamentária para priorizar as parcelas relevantes. Depois, abra a memória de origem, quantidade, percurso e condições de entrega desses itens.
No exemplo, três informações bastaram para revelar a inversão entre fornecedores: preço na origem, distância e custo unitário de transporte. Na obra real, as condições serão mais detalhadas, mas a pergunta permanece objetiva. O valor que você está comparando remunera o material disponível onde ele será necessário?
Material barato na origem pode chegar caro à obra. Compare as alternativas completas, confira as unidades e me conte se o frete já mudou a escolha de um fornecedor no seu orçamento.
Referências
BRASIL. Lei nº 14.133, de 1º de abril de 2021. Art. 23: estimativa de valores nas contratações públicas. Texto oficial.
DNIT. Sistema de Custos Referenciais de Obras — SICRO. Portal oficial.
DNIT. Manuais de Custos de Infraestrutura de Transportes. 2ª edição, 2025. Portal oficial dos manuais.
TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO. Acórdão nº 800/2021 — Plenário. Coerência entre locais das cotações de insumos e origens adotadas para transporte. Consulta oficial.



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