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Cronograma físico-financeiro de obra: do orçamento à curva S

Foto do escritor: Engº Fabrício Balestrin
Engº Fabrício Balestrin
3 de out.
10 min de leitura

A casa-exemplo da série tem preço: R$ 227.292,09, com BDI. É nessa hora que o cliente faz a pergunta seguinte, quase sempre com um pouco de susto: preciso ter tudo isso agora? Não. Ninguém paga uma obra de uma vez, porque ninguém constrói uma casa de uma vez. O dinheiro sai aos poucos, no ritmo em que a obra anda. E quem diz esse ritmo é o cronograma.

Este é o episódio 9 da série Meu primeiro orçamento de obras. No episódio 8, levamos a casa hipotética de 70 m² do custo ao preço. Agora vamos distribuir esse preço no tempo: transformar os 33 serviços da planilha em atividades, colocar as atividades nos meses, montar o cronograma físico-financeiro e ler a curva S que sai dele. No fim, o cliente sabe quanto precisa ter em cada mês, e quem constrói sabe como conferir se a obra está no ritmo.

Antes, uma distinção que vale guardar, e que resumi neste post do Instagram: cronograma e planejamento não são a mesma coisa.


Card: planejamento define como a obra será feita; cronograma define quando cada atividade acontece
Planejamento é estratégia; cronograma é a estratégia colocada no tempo.

Planejamento, cronograma e cronograma físico-financeiro

São três coisas diferentes, e cada uma depende da anterior.

  • Planejamento é a decisão de como a obra vai ser feita: quantas equipes, que método construtivo, em que ordem as frentes avançam, quando o material precisa chegar. É estratégia.

  • Cronograma é esse planejamento colocado no tempo: cada atividade com início, duração e dependências. Sem um bom planejamento, o cronograma é só uma lista de datas.

  • Cronograma físico-financeiro é o cronograma com o orçamento dentro. Para cada atividade e cada período, ele diz quanto da obra deve estar pronto (o físico) e quanto dinheiro isso representa (o financeiro).

O físico-financeiro é a ponte entre os dois lados da série. O orçamento respondeu "quanto custa"; o cronograma responde "quando"; juntos, eles viram o fluxo de caixa da obra. É o documento que o cliente usa para se organizar, que a construtora usa para comprar e contratar na hora certa e que, na obra pública, serve de base para as medições e os pagamentos.

 

Da planilha aos pacotes de trabalho

O primeiro impulso é pegar a planilha do episódio 7, com os 33 serviços, e dar uma data a cada linha. Parece organizado, mas não funciona. O orçamento separa os itens para custear; o cronograma agrupa os itens para executar. Bloco, argamassa, verga e mão de obra são linhas diferentes no orçamento e uma atividade só no canteiro: "executar a alvenaria". Foi o que discutimos num carrossel com a ObraExata: cronograma não é orçamento com datas.


Funil: o orçamento tem muitos itens de custo, a EAP tem pacotes e o cronograma tem atividades de produção
Você planeja frentes de produção, não linhas da planilha.

A regra para agrupar é a do mesmo carrossel. Uma boa atividade responde a cinco perguntas: quem executa, onde, o quê, quanto e em quanto tempo. E, na dúvida, vale a pergunta de decisão: preciso controlar este serviço separadamente para tomar alguma decisão? Se a resposta for não, ele entra num pacote maior.

Na casa-exemplo, os 33 serviços viraram 15 atividades:

Atividade

Itens da planilha

Preço com BDI (R$)

Serviços preliminares

1.1 a 1.3

8.884,22

Fundações e impermeabilização do baldrame

2.1 a 2.4 e 6.1

24.834,05

Estrutura

3.1 a 3.3

16.121,86

Alvenaria

4.1

21.479,42

Cobertura

5.1 a 5.3

23.015,42

Tubulações de água e esgoto

11.1

9.289,73

Instalações elétricas

10.1

10.229,76

Chapisco e reboco

8.1 e 8.2

31.437,62

Forro

8.6

5.942,48

Cerâmica de paredes e bancadas

8.5 e 8.8

7.649,28

Contrapiso, piso e rodapé

8.3, 8.4 e 8.7

15.797,18

Esquadrias

7.1 a 7.3

27.095,04

Pintura

9.1 e 9.2

17.055,74

Louças e metais

11.2

5.160,96

Calçada e limpeza final

12.1 e 12.2

3.299,33

Total

33 serviços

227.292,09

Preço de cada atividade = custo direto dos itens × 1,2288 (BDI de 22,88% do episódio 8).

Repare em três coisas que o orçamento não mostra. A impermeabilização do baldrame é uma etapa própria na planilha, mas no canteiro vai junto com a fundação, antes de subir a primeira fiada. A etapa de revestimentos, a maior da casa, se divide em quatro atividades que acontecem em momentos diferentes. E a hidráulica aparece em duas pontas: a tubulação vai para a parede antes do reboco, e as louças e os metais só entram no fim. A elétrica faz o mesmo dentro de uma única linha: eletrodutos e caixas antes do reboco, fiação e acabamento depois da pintura.

 

Duração e sequência: de onde sai o prazo

Cada atividade precisa de duas informações para entrar no tempo: quanto dura e do que depende.

A duração sai da quantidade e da produtividade. A composição do SINAPI, que lemos no episódio 4, traz o coeficiente de mão de obra: quantas horas de pedreiro e de servente cada m² de serviço consome. Com ele, a conta é direta:


Duração (dias) = quantidade × coeficiente de mão de obra (h/un) ÷ (horas de trabalho por dia × número de profissionais)


Só que o coeficiente da composição é uma média de referência, não a produtividade da sua equipe. Ele é o ponto de partida: busque o coeficiente da composição usada no orçamento, faça a conta e compare com o que a equipe que vai executar realmente produz. Um pedreiro experiente em bloco cerâmico rende mais que a média; uma equipe nova, numa casa cheia de recortes, rende menos. Quando os dois números não conversam, vale o da equipe, desde que seja medido, e não chutado. Na casa-exemplo, para manter o foco no método, as durações são hipotéticas e cabem numa obra de 6 meses.

A sequência vem da lógica da construção. A maior parte das ligações é do tipo término-início, em que uma atividade só começa quando a outra termina. Algumas podem correr em paralelo. Na casa-exemplo:

  1. Preliminares → fundação e impermeabilização do baldrame.

  2. Fundação → estrutura e alvenaria, que avançam juntas numa casa térrea (pilares, alvenaria entre eles, vigas e cinta por cima).

  3. Alvenaria → cobertura, tubulações e eletrodutos, em paralelo.

  4. Tubulações e eletrodutos embutidos → chapisco e reboco.

  5. Cobertura e reboco → forro, cerâmica, contrapiso e piso.

  6. Reboco → esquadrias → pintura.

  7. Pintura → fiação e acabamento elétrico, louças e metais, calçada e limpeza final.

A sequência mais longa, sem folga, é o caminho crítico. Na casa, ele passa por fundação, alvenaria, cobertura, reboco, piso, pintura e acabamentos. Qualquer atraso nessas atividades empurra a entrega. Já uma atividade fora do caminho crítico, como a cerâmica das áreas molhadas, tem alguma folga para escorregar sem mudar o prazo final.


Gráfico de Gantt da casa-exemplo: 15 atividades distribuídas em 6 meses, com o caminho crítico destacado
A elétrica aparece duas vezes: embutida antes do reboco e no acabamento, depois da pintura.

 

O cronograma físico-financeiro da casa-exemplo

Com as atividades, as durações e a sequência, montar o físico-financeiro é distribuir. Para cada atividade, diga que percentual dela será executado em cada mês. Depois, multiplique cada percentual pelo preço da atividade e some por mês. Os percentuais são o físico; os reais, o financeiro.


Cronograma físico-financeiro da casa-exemplo: 15 atividades em 6 meses, pico de R$ 51,7 mil no mês 5
Os percentuais são o físico; os reais de cada mês, o financeiro que o cliente precisa ter

Casa-exemplo hipotética de 70 m², prazo de 6 meses, preços com BDI de 22,88%. Durações e distribuição ilustrativas.

Duas observações sobre a tabela. Primeiro, o percentual de cada mês é do preço, não da quantidade de serviços: 30% das esquadrias pesam mais que 100% da limpeza. É por isso que o avanço físico da obra, no físico-financeiro, é ponderado pelo valor de cada atividade. Segundo, a distribuição dentro do mês é uma simplificação. O reboco não começa no dia 1 do mês 4 nem acaba no dia 30; a tabela só diz quanto dele deve estar pronto ao fim de cada período, que é exatamente o que a medição vai conferir.

 

Curva S: o desenho do ritmo da obra

Coloque o percentual acumulado de cada mês num gráfico e ligue os pontos. O resultado lembra um S esticado, e é daí que vem o nome. A curva S não traz nenhuma informação nova em relação à tabela; ela só deixa o ritmo visível de relance.


Curva S do cronograma físico-financeiro: avanço acumulado de 10,5% no mês 1 a 100% no mês 6, com pico no mês 5
O trecho mais inclinado, dos meses 3 a 5, é quando várias frentes trabalham ao mesmo tempo.

Na casa-exemplo, o desenho conta a história da obra em três trechos:

  • Começo mais plano (meses 1 e 2): pouco mais de 22% do preço. Preliminares, fundação e o início da estrutura andam devagar e envolvem menos dinheiro do que muita gente imagina.

  • Trecho inclinado (meses 3 a 5): a obra sobe 60 pontos percentuais em três meses. Cobertura, instalações, reboco e esquadrias se sobrepõem, com várias frentes trabalhando ao mesmo tempo.

  • Topo mais suave (mês 6): acabamentos, louças e limpeza. Ainda pesa 17% do preço, mas a curva já começa a deitar.

Um detalhe que costuma surpreender o cliente: o mês mais caro é o 5, de reboco, piso, forro e esquadrias, e não o da fundação. Acabamento é onde a casa fica com cara de casa, e é também onde o dinheiro mais pesa.

A curva S também serve de alarme. Uma curva quase reta, com o mesmo valor todo mês, quase sempre indica que o cronograma foi feito dividindo o preço pelo prazo, sem sequência por trás. E uma curva com um degrau enorme num mês só costuma esconder atividades empilhadas que, na vida real, não cabem no mesmo período.

 

Para o cliente: quanto ter em cada mês

Na casa-exemplo, o pagamento é por medição mensal: no fim de cada mês, mede-se o que foi executado e paga-se o valor correspondente. Com isso, a linha "total do mês" da tabela vira o calendário de desembolso do cliente. Ele não precisa dos R$ 227.292,09 no início. Precisa de uns R$ 23,8 mil ao fim do primeiro mês, de R$ 26,6 mil ao fim do segundo, e assim por diante, até o pico de R$ 51,7 mil no mês 5.

Três conselhos que valem para qualquer obra:

  • Planeje pelo pico, não pela média. A média da casa é de R$ 37,9 mil por mês, mas o mês 5 pede R$ 51,7 mil. Quem se organiza pela média descobre o problema justo na fase de acabamento.

  • Pergunte o que ficou fora. O preço da casa-exemplo não inclui projetos, aprovação na prefeitura, ligações definitivas de água e luz, muro nem a administração local que o episódio 8 mostrou faltar na planilha. Tudo isso também sai do bolso, e alguns itens saem antes do mês 1.

  • Guarde uma reserva. O cronograma é uma previsão. Chuva, troca de especificação e serviço que rende menos do que o previsto mudam a curva, e quase sempre para o lado de gastar antes.

Do lado de quem constrói, o mesmo cronograma mostra outra coisa: o descompasso entre gastar e receber. No mês 1, a construtora gasta cerca de R$ 19,4 mil de custo direto (material, mão de obra e equipamento) e só recebe a primeira medição depois que o mês fecha. Ela banca a obra por algumas semanas, todo mês. É exatamente o custo que as despesas financeiras do BDI cobrem, como vimos no episódio 8. E, quando há material comprado com antecedência, como esquadrias sob encomenda que pedem sinal, esse descompasso cresce.

 

Medição: o previsto contra o realizado

O cronograma físico-financeiro não termina quando a obra começa. Ele vira a régua da medição. Todo mês, mede-se o que foi de fato executado e compara-se com o que estava previsto, atividade por atividade.

Um exemplo na casa. Choveu no mês 3, e a cobertura, prevista para chegar a 50%, ficou em 30%. O resto andou como planejado:


Previsto

Realizado

Medição do mês 3 (R$)

40.170,08

35.567,00

Acumulado até o mês 3 (R$)

90.541,05

85.937,97

% acumulado

39,8%

37,8%

Dois pontos de diferença parecem pouco, mas a pergunta certa não é "quanto", e sim "onde". A cobertura está no caminho crítico: forro, contrapiso e piso dependem dela. Se os 20% que faltaram não forem recuperados no mês 4, a entrega escorrega. Um atraso do mesmo tamanho na cerâmica das áreas molhadas, que tem folga, preocuparia muito menos.

Quando o realizado descola do previsto, o caminho é sempre o mesmo. Primeiro, descubra a causa: clima, falta de material, equipe menor, projeto que mudou. Depois, replaneje o que falta, mantendo o cronograma original como linha de base para comparação. E vale olhar os dois avanços separados. O avanço físico é o que foi executado; o avanço financeiro é o que foi pago. Se o financeiro corre na frente do físico, alguém pagou adiantado, o que às vezes é combinado (o sinal de uma esquadria sob encomenda) e às vezes é o primeiro sinal de problema.


Ferramentas para cronograma e medição

Uma planilha dá conta de tudo isso numa casa, com uma aba para o cronograma e uma para cada medição. Se preferir trabalhar com o orçamento e o cronograma no mesmo lugar, a ObraExata, ferramenta que acompanho e apoio, gera o cronograma da obra (passo a passo para criar) e tem um módulo de medições, com tutoriais para criar, listar, editar e excluir medições e emitir os relatórios de medição.


Um prompt de IA para revisar a sequência

A IA ajuda a achar furos de lógica num cronograma, mas não sabe quanto a sua equipe produz. Por isso, o prompt abaixo pede apontamentos de sequência, não durações. Exporte o cronograma com as atividades, as durações e as predecessoras, anexe e cole:

Você é um revisor de cronogramas de obras. Anexei o cronograma de uma [tipo de obra] com as colunas: atividade, duração, início, fim e predecessoras. Não sugira durações, produtividades nem datas novas: quero apontamentos, não valores. Verifique e liste numa tabela (atividade, problema, por que chama atenção, o que conferir): 
1. Atividades sem predecessora que não sejam o início da obra, e atividades que não são predecessoras de nada além da entrega.
2. Atividades que começam antes do serviço do qual dependem fisicamente (por exemplo, reboco antes das tubulações embutidas, piso antes da cobertura, pintura antes das esquadrias).
3. Serviços do orçamento que não aparecem em nenhuma atividade do cronograma.
4. Atividades muito genéricas, que juntam serviços de frentes ou momentos diferentes da obra.
5. Meses com muitas atividades sobrepostas, como pergunta sobre equipe e espaço no canteiro.
No final, separe o que você considera provável erro do que é só ponto de atenção. Quando não tiver certeza, diga que não tem.

Como nos outros episódios, trate a resposta como uma lista de suspeitas e confira cada uma. E o que a IA não apontou não está automaticamente certo. No episódio 10, este prompt entra no assistente completo para o primeiro orçamento.

 

O orçamento diz quanto; o cronograma diz quando

Um orçamento sem cronograma responde só metade da pergunta do cliente. Com o cronograma físico-financeiro, o mesmo preço vira um calendário: quanto sai em cada mês, onde fica o pico e quais atividades não podem atrasar. E, durante a obra, vira a régua que mostra se o ritmo está certo antes que o atraso apareça na entrega.

Se quiser montar o seu, comece pelos pacotes de trabalho, não pelas linhas da planilha, e confira as durações com quem vai executar. No próximo e último episódio, a série fecha com os erros mais comuns do primeiro orçamento, um por etapa, e um assistente de IA que junta os prompts de todos os episódios. E você, monta o cronograma antes ou depois de fechar o preço? Conta nos comentários ou no Instagram.

Série Meu primeiro orçamento de obras · Episódio 9 de 10 · Anterior: Episódio 8 — Custo e preço de obra: o BDI na prática · Próximo: Episódio 10 — Os erros mais comuns do primeiro orçamento · Ver a série completa

 

Referências

CAIXA ECONÔMICA FEDERAL. SINAPI: relatórios de insumos e composições.

MATTOS, A. D. Planejamento e controle de obras. 2. ed. São Paulo: Oficina de Textos, 2019.

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