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Levantamento de quantitativos: como medir a obra no projeto

Foto do escritor: Engº Fabrício Balestrin
Engº Fabrício Balestrin
3 de out.
11 min de leitura

Atualizado: 3 de out.

O episódio anterior terminou com uma EAP numerada, conferida contra o projeto, em que cada linha aponta para o documento que a justifica. Agora cada uma dessas linhas precisa ganhar um número: quantos metros quadrados de alvenaria, quantos metros cúbicos de escavação, quantos quilos de aço. É o levantamento de quantitativos, e é aqui que muito orçamento bem-intencionado se perde.

O motivo é simples: o quantitativo multiplica tudo o que vem depois. Você pode escolher a melhor composição do SINAPI, na referência certa, com o BDI bem calculado, e ainda assim errar o total, porque o preço unitário foi aplicado sobre uma quantidade errada. E esse erro não aparece em nenhuma conferência de fórmula. A planilha soma direitinho um número que nasceu torto.

Este é o episódio 3 da série Meu primeiro orçamento de obras, na sequência do episódio 2, sobre escopo e EAP. O post mostra como medir do projeto com a unidade e o critério certos, o que o volume de concreto esconde, um caso em que o preço unitário mais caro sai mais barato no total e como registrar tudo numa memória de cálculo que outra pessoa consegue refazer.

 

Levantamento de quantitativos com memória de cálculo

Memória de cálculo é o registro de como cada quantidade foi obtida: quais medidas foram tiradas do projeto, de qual prancha, com que conta e com que critério de desconto. Ela é a diferença entre um número e um número que se sustenta. O teste é direto: outra pessoa, só com o projeto e a sua memória na mão, consegue chegar ao mesmo resultado sem te ligar?

Um exemplo pequeno mostra a ideia. A área de pintura das paredes de uma sala de 5,00 × 4,00 m, com pé-direito de 2,80 m, uma porta de 0,80 × 2,10 m e uma janela de 1,50 × 1,20 m, é 46,92 m². Escrito assim, é só um número. Escrito como conta, vira algo que qualquer um confere:


Levantamento de quantitativos da pintura de uma sala de 5 × 4 m: 50,40 m² brutos menos porta e janela, 46,92 m²
A conta escrita permite refazer o número quando a janela ou o pé-direito mudam.

A versão com a conta responde às três perguntas que todo quantitativo precisa responder: de onde veio (as medidas e a prancha), como foi calculado (a fórmula e o critério de desconto) e onde foi usado (em qual item da EAP e da planilha). Se o arquiteto trocar a janela por uma de 2,00 × 1,20 m, você sabe exatamente qual número mexer. Sem a conta, só resta medir tudo de novo.

Rastreabilidade não é burocracia de obra pública. Na obra particular, ela é o que permite responder ao cliente que pergunta por que há 380 m² de reboco numa casa de 100 m², e é o que salva o orçamento quando o projeto muda na véspera da entrega. Em obra pública, o TCU trata o levantamento e a quantificação dos serviços como a primeira das três grandes etapas da orçamentação, nas Orientações para elaboração de planilhas orçamentárias de obras públicas.

 

A unidade e o critério vêm da composição

O erro mais traiçoeiro do levantamento não é de conta, é de critério. Cada composição do SINAPI foi montada para uma unidade e uma forma de medir, e essa regra está escrita no caderno técnico da composição, no item de quantificação. Se você mede de um jeito e a composição foi feita para outro, o custo unitário passa a valer para uma quantidade que não é a dele.

O caso clássico é a alvenaria. Nas composições atuais de alvenaria de vedação do SINAPI, a quantificação pede a área líquida das paredes, incluindo a primeira fiada, com todos os vãos de portas e janelas descontados. Quem traz o hábito de outra referência, em que vãos pequenos não se descontam, mede área a mais e não percebe. O mesmo caderno avisa que o encunhamento não está incluído na composição, e por isso ele aparece como linha própria na EAP do episódio 2.

A tabela abaixo resume as unidades mais comuns numa casa e o erro que mais aparece em cada uma. Ela serve de orientação; o critério que vale é sempre o do caderno técnico da composição que você vai usar.

Serviço

Unidade

Como medir

Erro clássico

Escavação de sapata

m³

Volume efetivamente escavado, com ou sem folga para forma, conforme a composição

Medir o volume da peça e usar composição que prevê folga (ou o contrário)

Lastro de concreto magro

m² ou m³

Na unidade da composição escolhida

Medir em m³ e aplicar preço de m²

Concreto de fundação e estrutura

m³

Volume geométrico das peças

Contar duas vezes o encontro de viga e pilar

Forma

m²

Área de contato entre a forma e o concreto

Medir a área da peça em planta em vez das faces

Armadura

kg

Quadro de aço do projeto estrutural, por bitola

Estimar por taxa média quando o projeto tem o quadro

Alvenaria de vedação

m²

Área líquida, com primeira fiada, descontando todos os vãos

Descontar só vãos grandes, por hábito de outra referência

Revestimento e pintura

m²

Área a revestir ou pintar, com o critério de desconto da composição

Usar a área de piso como se fosse a de parede

Rodapé, rufo, calha

m

Comprimento

Esquecer trechos verticais e arremates

Portas, louças, pontos elétricos

un

Contagem no projeto

Contar pela planta de arquitetura e ignorar o projeto de instalações

Verba

vb

Só quando não dá para medir, com descrição do que inclui

Usar vb para fugir da medição

Fonte: elaborado a partir dos critérios de quantificação dos cadernos técnicos do SINAPI (Caixa). Confira sempre o caderno da composição adotada.

Uma consequência prática: o levantamento não fica totalmente separado da escolha da composição. Você mede sabendo qual serviço vai usar, e se trocar a composição depois, volta à memória para conferir se o critério mudou. O caso da escavação, duas seções abaixo, mostra o tamanho do problema quando isso fica para trás.

 

O que o volume de concreto esconde

Quem está começando costuma medir a estrutura pelo concreto: soma o volume de sapatas, pilares e vigas e acha que a fundação está orçada. Mas o metro cúbico de concreto é só o serviço mais visível. Em volta dele há uma família de serviços, cada um com sua unidade, que custam tanto ou mais que o próprio concreto.

Vamos abrir uma sapata isolada da casa de 100 m²: base de 1,50 × 1,50 m e 0,40 m de altura, sobre lastro de 5 cm, numa cava de 0,60 m de profundidade, executada com forma lateral. O pilar que nasce dela fica na superestrutura e não entra nesta conta.

Serviço

Unidade

Conta

Quantidade

Escavação, com folga de 0,40 m de cada lado para a forma

m³

2,30 × 2,30 × 0,60

3,17

Lastro de concreto magro, 5 cm

m²

1,50 × 1,50

2,25 (0,11 m³)

Forma lateral da sapata

m²

4 × 1,50 × 0,40

2,40

Armadura

kg

Quadro de aço do projeto estrutural

conforme projeto

Concreto da sapata

m³

1,50 × 1,50 × 0,40

0,90

Reaterro compactado

m³

3,17 − 0,11 − 0,90

2,16

Exemplo elaborado para este post, com uma sapata só. O reaterro desconta apenas o lastro e a base; num caso real, o trecho enterrado do pilar também sai.

Repare na proporção. Para 0,90 m³ de concreto, a obra escava 3,17 m³ de terra e devolve 2,16 m³ compactados. A escavação é mais de três vezes o volume da peça. Quem orça só o concreto deixa de fora a escavação, o lastro, a forma, o aço e o reaterro, e numa casa com oito ou dez sapatas essa conta vira dinheiro de verdade.


Sapata de 1,50 × 1,50 m: 0,90 m³ de concreto exigem 3,17 m³ de escavação, 2,40 m² de forma, lastro, aço e reaterro
A escavação passa de três vezes o volume de concreto da peça.

Com pilares e vigas acontece o mesmo. A viga baldrame traz escavação de vala, forma nas duas faces, aço, concreto, impermeabilização e reaterro. O pilar e a viga aérea trazem forma, escoramento conforme a composição, aço e concreto. Ao montar a memória, a regra é: para cada peça de concreto, pergunte que outros serviços ela puxa. A EAP do episódio 2 já deixou as linhas prontas; aqui elas ganham número.

 

A escavação mais cara por m³ que sai mais barata

O SINAPI tem duas composições de escavação manual para a mesma sapata. A 96522 é a escavação sem espaço para colocar forma; a 96523 inclui a escavação para colocação de formas. Na referência do Paraná de maio de 2026, a primeira custa R$ 207,12/m³ e a segunda, R$ 137,00/m³. Olhando só o preço unitário, a 96523 parece a escolha óbvia.

O detalhe está na quantificação. As duas pedem o volume efetivamente escavado, e o caderno técnico da 96523 informa que a produtividade foi medida com 40 cm de escavação de cada lado da peça, para montar e escorar a forma. Ou seja: a 96523 é mais barata por m³ justamente porque cava muito mais metro cúbico, e a terra extra é mais fácil de tirar. Na sapata de 1,50 × 1,50 m com cava de 0,60 m, a conta fica assim:


96522 (sem folga para forma)

96523 (com folga para forma)

Dimensões da cava

1,50 × 1,50 × 0,60 m

2,30 × 2,30 × 0,60 m

Volume escavado

1,35 m³

3,174 m³

Custo unitário

R$ 207,12/m³

R$ 137,00/m³

Custo da escavação

R$ 279,61

R$ 434,84

Fonte: composições SINAPI 96522 e 96523 (AF_01/2024), valores SINAPI/PR de 05/2026.


Escavação de sapata: 1,35 m³ a R$ 207,12 dá R$ 279,61; 3,174 m³ a R$ 137,00 dá R$ 434,84, R$ 155,23 a mais
Menor custo por m³ não é menor custo total: a 96523 cava mais que o dobro.

A composição "mais barata" sai R$ 155,23 mais cara por sapata. Numa casa com dez sapatas iguais, são R$ 1.552,30 só de escavação. E a diferença não para aí: com a folga, a sapata ganha 2,40 m² de forma e o reaterro sobe de 0,34 m³ para 2,16 m³, como na tabela da seção anterior.

Agora a parte que separa orçamento de conta de padaria. A 96522 só vale se a sapata puder ser concretada contra o próprio solo, sem forma lateral, e isso depende do terreno e do que o projeto de fundações pede. Em solo que desmorona, ela não é opção, e a comparação nem existe. A pergunta certa, então, não é "qual composição é mais barata?", e sim "como esta sapata vai ser executada?". O método decide a composição, a composição decide o critério de medição, e o critério decide a quantidade. Comparar só o R$/m³ pula as três decisões.

 

Como organizar a memória de cálculo

A memória de cálculo segue a EAP, linha por linha, com a mesma numeração. Cada registro precisa de pouca coisa: o item da EAP, o local ou a peça, a prancha de onde saíram as medidas, a conta escrita por extenso, o resultado com a unidade e uma observação quando houver uma decisão por trás (como a escolha da folga para forma). Veja como ficam algumas linhas da casa de 100 m², supondo dez sapatas iguais à do exemplo:

Item EAP

Serviço

Local

Prancha

Conta

Quantidade

Observação

2.1.1

Escavação manual de sapata

S1 a S10

EST-01

10 × (2,30 × 2,30 × 0,60)

31,74 m³

Com folga de 0,40 m por lado (96523)

2.2.1

Lastro de concreto magro, 5 cm

S1 a S10

EST-01

10 × (1,50 × 1,50)

22,50 m²

—

2.2.2

Forma de sapata

S1 a S10

EST-01

10 × (4 × 1,50 × 0,40)

24,00 m²

Só faces laterais

2.2.4

Concreto de sapata

S1 a S10

EST-01

10 × (1,50 × 1,50 × 0,40)

9,00 m³

—

2.2.5

Reaterro compactado

S1 a S10

EST-01

31,74 − (22,50 × 0,05) − 9,00

21,62 m³

Escavação − lastro − concreto

9.1.1

Pintura de paredes internas

Sala

ARQ-02

[2 × (5,00 + 4,00) × 2,80] − 1,68 − 1,80

46,92 m²

Descontados porta P1 e janela J1

Exemplo elaborado para este post. Os códigos de prancha (EST-01, ARQ-02) são ilustrativos.

Três hábitos deixam essa tabela muito mais útil. Escreva a conta, não só o resultado, como na coluna do meio, para que uma mudança de projeto vire a troca de um número e não uma nova medição. Separe por local ou peça quando o serviço se repete com medidas diferentes (S1 a S10 só ficam juntas porque são iguais). E arredonde só no fim: arredondar cada linha antes de somar acumula diferença, principalmente em volumes.

Dá para fazer isso numa planilha comum, com uma aba de memória ligada à aba do orçamento. Se preferir uma ferramenta pronta, o ObraExata, que acompanho e apoio, tem um memorial de cálculo de quantitativos dentro do próprio orçamento: você registra a equação, as dimensões e as observações de cada item, e quando uma dimensão muda, o quantitativo e o orçamento se atualizam juntos. É gratuito e funciona na nuvem.


Memória de cálculo do quantitativo no ObraExata: equação da área de pintura e resultado de 46,92 m²
Cada medida fica rotulada, e o subtotal vai direto para o item do orçamento.

Qualquer que seja a ferramenta, o ponto é o mesmo: a quantidade que vai para a planilha tem que ter uma linha na memória que a explique. Se o número não tem conta, ele ainda não está pronto para receber preço.

 

Armadilhas comuns no levantamento de quantitativos

Medir antes de saber o critério. Medir a alvenaria "do jeito de sempre" e só depois escolher a composição é o caminho mais curto para um critério trocado. Abra o caderno técnico da composição antes de medir, ou pelo menos antes de fechar a memória.

Contar duas vezes o mesmo encontro. Onde viga encontra pilar, onde parede encontra parede, onde laje apoia na viga: o volume ou a área do encontro só pode entrar uma vez. A forma mais segura é definir uma regra (por exemplo, "pilar passa, viga para na face do pilar") e escrevê-la na memória.

Medir parede pelo lado errado. Alvenaria costuma ser medida pelo eixo; revestimento e pintura, pela face de cada ambiente. Usar a mesma área para as duas coisas deixa um dos serviços errado, e o erro passa despercebido porque os números "parecem" razoáveis.

Somar perda que a composição já tem. Muitas composições já consideram perdas nos coeficientes dos insumos. Medir com 10% "de segurança" por cima dobra a perda. A quantidade da memória é a quantidade do projeto; perdas e consumos são assunto do episódio 4.

Arredondar cedo demais. Arredondar cada linha para cima, "por garantia", parece prudente. Em cinquenta linhas, vira uma sobra que ninguém sabe explicar. Arredonde o resultado, não as parcelas.

Memória que só o autor entende. Uma conta como "12,4 × 2,8 − 6" não diz de onde veio o 12,4, nem o que é o 6. Rotule as medidas (perímetro da sala, porta P1) e cite a prancha. Daqui a três meses, o autor que não vai entender é você.

 

Onde a IA ajuda (e onde não ajuda)

Aqui a regra é mais dura que no episódio 2: não use IA para medir. Ela não enxerga a sua prancha com a precisão de uma cota, confunde escala, inventa dimensão que não está no desenho e entrega tudo com a mesma confiança. Um quantitativo errado com cara de certo é exatamente o problema que este post tenta evitar.

Onde ela ajuda é na revisão. Uma memória de cálculo exportada como tabela é texto, e procurar inconsistência em texto é algo que essas ferramentas fazem bem. O prompt abaixo pede uma conferência, não um número novo. Cole a EAP e a memória depois dele:

Você é um engenheiro orçamentista revisando a memória de cálculo de quantitativos de uma obra residencial.

Compare a EAP e a memória de cálculo abaixo e aponte, em uma tabela (item, problema, por que é um problema, o que conferir):
- itens da EAP sem nenhuma linha na memória;
- linhas da memória que não correspondem a nenhum item da EAP;
- unidades incoerentes com o serviço (ex.: forma em m³, escavação em m²);
- contas em que o resultado não confere com a fórmula escrita;
- linhas sem prancha de origem ou com medidas sem rótulo;
- peças de concreto sem os serviços que costumam acompanhá-las (escavação, lastro, forma, armadura, reaterro);
- possíveis duplicidades (o mesmo local medido duas vezes).

Regras:
- Não refaça medições nem proponha quantidades novas.
- Não informe preços nem coeficientes.
- Quando não der para concluir, escreva "conferir no projeto".

EAP:
[cole aqui]

Memória de cálculo:
[cole aqui]

O resultado é uma lista do que conferir, e a conferência é sua, com o projeto aberto. Se a IA disser que uma conta está errada, refaça a conta antes de acreditar; às vezes quem errou foi ela.

 

Antes de passar para os preços

Preço unitário bom não corrige quantidade errada; ele só multiplica o erro com mais elegância. Antes de levar qualquer número para a planilha, confira se ele tem uma linha na memória, com conta, prancha e o critério da composição que você vai usar.

Nem toda linha merece o mesmo tempo de conferência. Os poucos serviços que pesam quase todo o custo, como fundação, estrutura e revestimentos, pedem medição mais cuidadosa, e o post sobre curva ABC no orçamento de obras mostra como encontrá-los. No próximo episódio, a quantidade encontra a composição: como ler uma composição do SINAPI, do coeficiente ao custo total. Se você tem um jeito próprio de organizar a memória de cálculo, ou um erro de quantitativo que já te custou caro, me conta nos comentários ou no Instagram.

 

Referências

BRASIL. Tribunal de Contas da União. Orientações para elaboração de planilhas orçamentárias de obras públicas. Brasília: TCU, 2014.

CAIXA ECONÔMICA FEDERAL. SINAPI: cadernos técnicos de composições.

OBRAEXATA. Tutorial: quantitativo. Acesso em: out. 2026.

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