Levantamento de quantitativos: como medir a obra no projeto

Atualizado: 3 de out.
O episódio anterior terminou com uma EAP numerada, conferida contra o projeto, em que cada linha aponta para o documento que a justifica. Agora cada uma dessas linhas precisa ganhar um número: quantos metros quadrados de alvenaria, quantos metros cúbicos de escavação, quantos quilos de aço. É o levantamento de quantitativos, e é aqui que muito orçamento bem-intencionado se perde.
O motivo é simples: o quantitativo multiplica tudo o que vem depois. Você pode escolher a melhor composição do SINAPI, na referência certa, com o BDI bem calculado, e ainda assim errar o total, porque o preço unitário foi aplicado sobre uma quantidade errada. E esse erro não aparece em nenhuma conferência de fórmula. A planilha soma direitinho um número que nasceu torto.
Este é o episódio 3 da série Meu primeiro orçamento de obras, na sequência do episódio 2, sobre escopo e EAP. O post mostra como medir do projeto com a unidade e o critério certos, o que o volume de concreto esconde, um caso em que o preço unitário mais caro sai mais barato no total e como registrar tudo numa memória de cálculo que outra pessoa consegue refazer.
Levantamento de quantitativos com memória de cálculo
Memória de cálculo é o registro de como cada quantidade foi obtida: quais medidas foram tiradas do projeto, de qual prancha, com que conta e com que critério de desconto. Ela é a diferença entre um número e um número que se sustenta. O teste é direto: outra pessoa, só com o projeto e a sua memória na mão, consegue chegar ao mesmo resultado sem te ligar?
Um exemplo pequeno mostra a ideia. A área de pintura das paredes de uma sala de 5,00 × 4,00 m, com pé-direito de 2,80 m, uma porta de 0,80 × 2,10 m e uma janela de 1,50 × 1,20 m, é 46,92 m². Escrito assim, é só um número. Escrito como conta, vira algo que qualquer um confere:
A versão com a conta responde às três perguntas que todo quantitativo precisa responder: de onde veio (as medidas e a prancha), como foi calculado (a fórmula e o critério de desconto) e onde foi usado (em qual item da EAP e da planilha). Se o arquiteto trocar a janela por uma de 2,00 × 1,20 m, você sabe exatamente qual número mexer. Sem a conta, só resta medir tudo de novo.
Rastreabilidade não é burocracia de obra pública. Na obra particular, ela é o que permite responder ao cliente que pergunta por que há 380 m² de reboco numa casa de 100 m², e é o que salva o orçamento quando o projeto muda na véspera da entrega. Em obra pública, o TCU trata o levantamento e a quantificação dos serviços como a primeira das três grandes etapas da orçamentação, nas Orientações para elaboração de planilhas orçamentárias de obras públicas.
A unidade e o critério vêm da composição
O erro mais traiçoeiro do levantamento não é de conta, é de critério. Cada composição do SINAPI foi montada para uma unidade e uma forma de medir, e essa regra está escrita no caderno técnico da composição, no item de quantificação. Se você mede de um jeito e a composição foi feita para outro, o custo unitário passa a valer para uma quantidade que não é a dele.
O caso clássico é a alvenaria. Nas composições atuais de alvenaria de vedação do SINAPI, a quantificação pede a área líquida das paredes, incluindo a primeira fiada, com todos os vãos de portas e janelas descontados. Quem traz o hábito de outra referência, em que vãos pequenos não se descontam, mede área a mais e não percebe. O mesmo caderno avisa que o encunhamento não está incluído na composição, e por isso ele aparece como linha própria na EAP do episódio 2.
A tabela abaixo resume as unidades mais comuns numa casa e o erro que mais aparece em cada uma. Ela serve de orientação; o critério que vale é sempre o do caderno técnico da composição que você vai usar.
Serviço | Unidade | Como medir | Erro clássico |
Escavação de sapata | m³ | Volume efetivamente escavado, com ou sem folga para forma, conforme a composição | Medir o volume da peça e usar composição que prevê folga (ou o contrário) |
Lastro de concreto magro | m² ou m³ | Na unidade da composição escolhida | Medir em m³ e aplicar preço de m² |
Concreto de fundação e estrutura | m³ | Volume geométrico das peças | Contar duas vezes o encontro de viga e pilar |
Forma | m² | Área de contato entre a forma e o concreto | Medir a área da peça em planta em vez das faces |
Armadura | kg | Quadro de aço do projeto estrutural, por bitola | Estimar por taxa média quando o projeto tem o quadro |
Alvenaria de vedação | m² | Área líquida, com primeira fiada, descontando todos os vãos | Descontar só vãos grandes, por hábito de outra referência |
Revestimento e pintura | m² | Área a revestir ou pintar, com o critério de desconto da composição | Usar a área de piso como se fosse a de parede |
Rodapé, rufo, calha | m | Comprimento | Esquecer trechos verticais e arremates |
Portas, louças, pontos elétricos | un | Contagem no projeto | Contar pela planta de arquitetura e ignorar o projeto de instalações |
Verba | vb | Só quando não dá para medir, com descrição do que inclui | Usar vb para fugir da medição |
Fonte: elaborado a partir dos critérios de quantificação dos cadernos técnicos do SINAPI (Caixa). Confira sempre o caderno da composição adotada.
Uma consequência prática: o levantamento não fica totalmente separado da escolha da composição. Você mede sabendo qual serviço vai usar, e se trocar a composição depois, volta à memória para conferir se o critério mudou. O caso da escavação, duas seções abaixo, mostra o tamanho do problema quando isso fica para trás.
O que o volume de concreto esconde
Quem está começando costuma medir a estrutura pelo concreto: soma o volume de sapatas, pilares e vigas e acha que a fundação está orçada. Mas o metro cúbico de concreto é só o serviço mais visível. Em volta dele há uma família de serviços, cada um com sua unidade, que custam tanto ou mais que o próprio concreto.
Vamos abrir uma sapata isolada da casa de 100 m²: base de 1,50 × 1,50 m e 0,40 m de altura, sobre lastro de 5 cm, numa cava de 0,60 m de profundidade, executada com forma lateral. O pilar que nasce dela fica na superestrutura e não entra nesta conta.
Serviço | Unidade | Conta | Quantidade |
Escavação, com folga de 0,40 m de cada lado para a forma | m³ | 2,30 × 2,30 × 0,60 | 3,17 |
Lastro de concreto magro, 5 cm | m² | 1,50 × 1,50 | 2,25 (0,11 m³) |
Forma lateral da sapata | m² | 4 × 1,50 × 0,40 | 2,40 |
Armadura | kg | Quadro de aço do projeto estrutural | conforme projeto |
Concreto da sapata | m³ | 1,50 × 1,50 × 0,40 | 0,90 |
Reaterro compactado | m³ | 3,17 − 0,11 − 0,90 | 2,16 |
Exemplo elaborado para este post, com uma sapata só. O reaterro desconta apenas o lastro e a base; num caso real, o trecho enterrado do pilar também sai.
Repare na proporção. Para 0,90 m³ de concreto, a obra escava 3,17 m³ de terra e devolve 2,16 m³ compactados. A escavação é mais de três vezes o volume da peça. Quem orça só o concreto deixa de fora a escavação, o lastro, a forma, o aço e o reaterro, e numa casa com oito ou dez sapatas essa conta vira dinheiro de verdade.
Com pilares e vigas acontece o mesmo. A viga baldrame traz escavação de vala, forma nas duas faces, aço, concreto, impermeabilização e reaterro. O pilar e a viga aérea trazem forma, escoramento conforme a composição, aço e concreto. Ao montar a memória, a regra é: para cada peça de concreto, pergunte que outros serviços ela puxa. A EAP do episódio 2 já deixou as linhas prontas; aqui elas ganham número.
A escavação mais cara por m³ que sai mais barata
O SINAPI tem duas composições de escavação manual para a mesma sapata. A 96522 é a escavação sem espaço para colocar forma; a 96523 inclui a escavação para colocação de formas. Na referência do Paraná de maio de 2026, a primeira custa R$ 207,12/m³ e a segunda, R$ 137,00/m³. Olhando só o preço unitário, a 96523 parece a escolha óbvia.
O detalhe está na quantificação. As duas pedem o volume efetivamente escavado, e o caderno técnico da 96523 informa que a produtividade foi medida com 40 cm de escavação de cada lado da peça, para montar e escorar a forma. Ou seja: a 96523 é mais barata por m³ justamente porque cava muito mais metro cúbico, e a terra extra é mais fácil de tirar. Na sapata de 1,50 × 1,50 m com cava de 0,60 m, a conta fica assim:
96522 (sem folga para forma) | 96523 (com folga para forma) | |
Dimensões da cava | 1,50 × 1,50 × 0,60 m | 2,30 × 2,30 × 0,60 m |
Volume escavado | 1,35 m³ | 3,174 m³ |
Custo unitário | R$ 207,12/m³ | R$ 137,00/m³ |
Custo da escavação | R$ 279,61 | R$ 434,84 |
Fonte: composições SINAPI 96522 e 96523 (AF_01/2024), valores SINAPI/PR de 05/2026.
A composição "mais barata" sai R$ 155,23 mais cara por sapata. Numa casa com dez sapatas iguais, são R$ 1.552,30 só de escavação. E a diferença não para aí: com a folga, a sapata ganha 2,40 m² de forma e o reaterro sobe de 0,34 m³ para 2,16 m³, como na tabela da seção anterior.
Agora a parte que separa orçamento de conta de padaria. A 96522 só vale se a sapata puder ser concretada contra o próprio solo, sem forma lateral, e isso depende do terreno e do que o projeto de fundações pede. Em solo que desmorona, ela não é opção, e a comparação nem existe. A pergunta certa, então, não é "qual composição é mais barata?", e sim "como esta sapata vai ser executada?". O método decide a composição, a composição decide o critério de medição, e o critério decide a quantidade. Comparar só o R$/m³ pula as três decisões.
Como organizar a memória de cálculo
A memória de cálculo segue a EAP, linha por linha, com a mesma numeração. Cada registro precisa de pouca coisa: o item da EAP, o local ou a peça, a prancha de onde saíram as medidas, a conta escrita por extenso, o resultado com a unidade e uma observação quando houver uma decisão por trás (como a escolha da folga para forma). Veja como ficam algumas linhas da casa de 100 m², supondo dez sapatas iguais à do exemplo:
Item EAP | Serviço | Local | Prancha | Conta | Quantidade | Observação |
2.1.1 | Escavação manual de sapata | S1 a S10 | EST-01 | 10 × (2,30 × 2,30 × 0,60) | 31,74 m³ | Com folga de 0,40 m por lado (96523) |
2.2.1 | Lastro de concreto magro, 5 cm | S1 a S10 | EST-01 | 10 × (1,50 × 1,50) | 22,50 m² | — |
2.2.2 | Forma de sapata | S1 a S10 | EST-01 | 10 × (4 × 1,50 × 0,40) | 24,00 m² | Só faces laterais |
2.2.4 | Concreto de sapata | S1 a S10 | EST-01 | 10 × (1,50 × 1,50 × 0,40) | 9,00 m³ | — |
2.2.5 | Reaterro compactado | S1 a S10 | EST-01 | 31,74 − (22,50 × 0,05) − 9,00 | 21,62 m³ | Escavação − lastro − concreto |
9.1.1 | Pintura de paredes internas | Sala | ARQ-02 | [2 × (5,00 + 4,00) × 2,80] − 1,68 − 1,80 | 46,92 m² | Descontados porta P1 e janela J1 |
Exemplo elaborado para este post. Os códigos de prancha (EST-01, ARQ-02) são ilustrativos.
Três hábitos deixam essa tabela muito mais útil. Escreva a conta, não só o resultado, como na coluna do meio, para que uma mudança de projeto vire a troca de um número e não uma nova medição. Separe por local ou peça quando o serviço se repete com medidas diferentes (S1 a S10 só ficam juntas porque são iguais). E arredonde só no fim: arredondar cada linha antes de somar acumula diferença, principalmente em volumes.
Dá para fazer isso numa planilha comum, com uma aba de memória ligada à aba do orçamento. Se preferir uma ferramenta pronta, o ObraExata, que acompanho e apoio, tem um memorial de cálculo de quantitativos dentro do próprio orçamento: você registra a equação, as dimensões e as observações de cada item, e quando uma dimensão muda, o quantitativo e o orçamento se atualizam juntos. É gratuito e funciona na nuvem.
Qualquer que seja a ferramenta, o ponto é o mesmo: a quantidade que vai para a planilha tem que ter uma linha na memória que a explique. Se o número não tem conta, ele ainda não está pronto para receber preço.
Armadilhas comuns no levantamento de quantitativos
Medir antes de saber o critério. Medir a alvenaria "do jeito de sempre" e só depois escolher a composição é o caminho mais curto para um critério trocado. Abra o caderno técnico da composição antes de medir, ou pelo menos antes de fechar a memória.
Contar duas vezes o mesmo encontro. Onde viga encontra pilar, onde parede encontra parede, onde laje apoia na viga: o volume ou a área do encontro só pode entrar uma vez. A forma mais segura é definir uma regra (por exemplo, "pilar passa, viga para na face do pilar") e escrevê-la na memória.
Medir parede pelo lado errado. Alvenaria costuma ser medida pelo eixo; revestimento e pintura, pela face de cada ambiente. Usar a mesma área para as duas coisas deixa um dos serviços errado, e o erro passa despercebido porque os números "parecem" razoáveis.
Somar perda que a composição já tem. Muitas composições já consideram perdas nos coeficientes dos insumos. Medir com 10% "de segurança" por cima dobra a perda. A quantidade da memória é a quantidade do projeto; perdas e consumos são assunto do episódio 4.
Arredondar cedo demais. Arredondar cada linha para cima, "por garantia", parece prudente. Em cinquenta linhas, vira uma sobra que ninguém sabe explicar. Arredonde o resultado, não as parcelas.
Memória que só o autor entende. Uma conta como "12,4 × 2,8 − 6" não diz de onde veio o 12,4, nem o que é o 6. Rotule as medidas (perímetro da sala, porta P1) e cite a prancha. Daqui a três meses, o autor que não vai entender é você.
Onde a IA ajuda (e onde não ajuda)
Aqui a regra é mais dura que no episódio 2: não use IA para medir. Ela não enxerga a sua prancha com a precisão de uma cota, confunde escala, inventa dimensão que não está no desenho e entrega tudo com a mesma confiança. Um quantitativo errado com cara de certo é exatamente o problema que este post tenta evitar.
Onde ela ajuda é na revisão. Uma memória de cálculo exportada como tabela é texto, e procurar inconsistência em texto é algo que essas ferramentas fazem bem. O prompt abaixo pede uma conferência, não um número novo. Cole a EAP e a memória depois dele:
Você é um engenheiro orçamentista revisando a memória de cálculo de quantitativos de uma obra residencial.
Compare a EAP e a memória de cálculo abaixo e aponte, em uma tabela (item, problema, por que é um problema, o que conferir):
- itens da EAP sem nenhuma linha na memória;
- linhas da memória que não correspondem a nenhum item da EAP;
- unidades incoerentes com o serviço (ex.: forma em m³, escavação em m²);
- contas em que o resultado não confere com a fórmula escrita;
- linhas sem prancha de origem ou com medidas sem rótulo;
- peças de concreto sem os serviços que costumam acompanhá-las (escavação, lastro, forma, armadura, reaterro);
- possíveis duplicidades (o mesmo local medido duas vezes).
Regras:
- Não refaça medições nem proponha quantidades novas.
- Não informe preços nem coeficientes.
- Quando não der para concluir, escreva "conferir no projeto".
EAP:
[cole aqui]
Memória de cálculo:
[cole aqui]O resultado é uma lista do que conferir, e a conferência é sua, com o projeto aberto. Se a IA disser que uma conta está errada, refaça a conta antes de acreditar; às vezes quem errou foi ela.
Antes de passar para os preços
Preço unitário bom não corrige quantidade errada; ele só multiplica o erro com mais elegância. Antes de levar qualquer número para a planilha, confira se ele tem uma linha na memória, com conta, prancha e o critério da composição que você vai usar.
Nem toda linha merece o mesmo tempo de conferência. Os poucos serviços que pesam quase todo o custo, como fundação, estrutura e revestimentos, pedem medição mais cuidadosa, e o post sobre curva ABC no orçamento de obras mostra como encontrá-los. No próximo episódio, a quantidade encontra a composição: como ler uma composição do SINAPI, do coeficiente ao custo total. Se você tem um jeito próprio de organizar a memória de cálculo, ou um erro de quantitativo que já te custou caro, me conta nos comentários ou no Instagram.
Série Meu primeiro orçamento de obras · Episódio 3 de 10 · Anterior: Episódio 2 — EAP de obra: por que o orçamento não começa no SINAPI · Próximo: Episódio 4 — Como ler uma composição do SINAPI · Ver a série completa
Referências
BRASIL. Tribunal de Contas da União. Orientações para elaboração de planilhas orçamentárias de obras públicas. Brasília: TCU, 2014.
CAIXA ECONÔMICA FEDERAL. SINAPI: cadernos técnicos de composições.
CAIXA ECONÔMICA FEDERAL. SINAPI – Caderno técnico de composições: fundações rasas (blocos, sapatas e vigas baldrame). Brasília: Caixa.
OBRAEXATA. Tutorial: quantitativo. Acesso em: out. 2026.





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