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Composição de custo unitário: preço do material x serviço

Foto do escritor: Engº Fabrício Balestrin
Engº Fabrício Balestrin
3 de out.
8 min de leitura

Atualizado: 3 de out.

O cliente viu o porcelanato que quer a R$ 59,90 o m². Aí abre o orçamento e encontra o piso a R$ 129,19 o m². A primeira reação é quase sempre a mesma: "vocês estão cobrando o dobro?". E a resposta honesta é sim, o serviço custa mais que o dobro do material. Só que ninguém está inflando nada: a diferença tem nome, quantidade e preço, e está escrita na composição de custo unitário.

No episódio 4, aprendemos a ler uma composição do SINAPI linha por linha. Agora vamos usar essa leitura para responder à pergunta que todo cliente faz. Este é o episódio 5 da série Meu primeiro orçamento de obras, e o exemplo é um piso de porcelanato 60 × 60 cm, do preço de loja ao custo instalado, real por real.

 

O caso do porcelanato: de onde sai cada real

A composição que representa esse piso é a 87262: revestimento de piso com placas de porcelanato 60 × 60 cm, em ambientes de 5 a 10 m². No SINAPI/PR de agosto de 2026, sem desoneração, o porcelanato (insumo 45190) está a R$ 59,90 o m², e é esse o "preço de loja" do nosso exemplo. O serviço completo sai a R$ 129,19 o m².


Composição de custo unitário do porcelanato: R$ 59,90 de material viram R$ 129,19 por m² com perdas, argamassa e mão de obra
Fonte: composição SINAPI 87262 (AF_02/2023_PE), SINAPI/PR 08/2026, sem desoneração.

Lendo a tabela de outra forma, os R$ 59,90 viram R$ 129,19 assim:


Composição de custo unitário do porcelanato: R$ 59,90 de material viram R$ 129,19 por m² com perdas, argamassa e mão de obra
A peça é menos da metade do custo do piso instalado.

  • Perdas e recortes: + R$ 5,17. Para cada m² de piso pronto, entram 1,0864 m² de porcelanato. Os 8,64% a mais são as peças cortadas nos cantos, as quebradas e as que sobram.

  • Argamassa colante AC III: + R$ 23,00. São 9,13 kg por m², a argamassa indicada para porcelanato de formato grande. Sozinha, ela custa mais de um terço do preço do piso.

  • Rejunte: + R$ 0,67. É o menor item, mas é um material que o cliente quase nunca coloca na conta.

  • Mão de obra: + R$ 40,45. O azulejista e o servente, já com encargos, respondem por 31% do custo instalado.

Em 100 m² de piso, a conta do "preço de loja" daria R$ 5.990. A composição dá R$ 12.919: 108,64 m² de porcelanato, 913 kg de argamassa (uns 46 sacos de 20 kg), 14,1 kg de rejunte, 80,4 horas de azulejista e 20,6 horas de servente. É essa lista, e não o preço da caixa na loja, que vai para o pedido de compra e para o cronograma.

 

Perdas e recortes: por que se compra mais do que se assenta

O coeficiente do porcelanato é 1,0864, e não 1,0000, porque a obra não assenta só peças inteiras. Nos cantos, nas soleiras e em volta dos ralos, a peça é cortada e o pedaço que sobra raramente serve em outro lugar. Algumas quebram no transporte ou no corte. O SINAPI mediu essas perdas em obra e colocou o resultado no coeficiente. Foi exatamente a dúvida de um leitor no post original do Instagram, e a resposta é esta: os 8,64% já estão lá dentro.

O detalhe que pouca gente percebe é que essa perda muda com o tamanho do ambiente. O SINAPI tem três composições para o mesmo porcelanato 60 × 60, separadas pela área do cômodo:

Composição

Área do ambiente

Porcelanato (m² por m²)

Perda embutida

Azulejista (h/m²)

Servente (h/m²)

Custo (R$/m²)

87261

Menor que 5 m²

1,1326

13,3%

1,1136

0,2490

146,35

87262

De 5 a 10 m²

1,0864

8,6%

0,8038

0,2064

129,19

87263

Maior que 10 m²

1,0690

6,9%

0,5203

0,1674

114,99

Fonte: composições SINAPI 87261, 87262 e 87263 (AF_02/2023_PE), SINAPI/PR 08/2026, sem desoneração.


Composição de custo unitário por tamanho do ambiente: porcelanato com perda de 13,3% a 6,9% e custo de R$ 146,35 a R$ 114,99 por m²
No lavabo, mais recorte e mais tempo de azulejista: 27% a mais por m² que na sala.

Num banheiro pequeno, quase toda peça encosta em parede, ralo ou bacia, e é cortada. O azulejista também passa mais tempo medindo e cortando do que assentando: 1,11 hora por m², o dobro do que gasta numa sala grande. O resultado é que o mesmo porcelanato, no mesmo mês e no mesmo estado, custa 27% mais por m² no lavabo do que na sala.

Duas consequências práticas para o orçamento:

  • Medir por ambiente vale a pena. Se a memória de cálculo do episódio 3 separa os pisos por cômodo, dá para usar a composição certa para cada um. Jogar a casa toda na 87263 deixa banheiros e lavabos subestimados.

  • Não some 10% por cima. A perda já está no coeficiente. Somar mais uma margem é contar perda duas vezes. Se a obra tiver algo que aumente a perda além do previsto, como paginação na diagonal, peças com veio que precisam casar ou reserva de peças do mesmo lote, isso é um ajuste justificado no coeficiente, registrado na memória, e não um percentual genérico.

 

Materiais que ninguém lembra

Quando o cliente pensa em piso, pensa na peça. A composição lembra do resto.

Argamassa colante AC III. São 9,13 kg por m², com as perdas da obra já incorporadas, e é o segundo maior custo de material: R$ 23,00 por m². O porcelanato absorve muito pouca água e, em formato grande, exige uma argamassa de maior aderência. Por isso a composição usa a AC III, que custa três vezes mais por quilo que a AC I usada na cerâmica comum.

Rejunte. São 0,141 kg por m², e o esforço de rejuntar, feito no mínimo 72 horas depois do assentamento, já está na produtividade do azulejista. Custa pouco, mas precisa estar no pedido de compra.

O que a composição não traz. Aqui está um detalhe que vale ouro para quem orça porcelanato. O caderno técnico da 87262 descreve o assentamento com espaçador nivelador e cunha, o sistema que mantém as peças grandes no mesmo plano. Mas os dois insumos estão excluídos da composição, registrados pela Caixa como pendência: o caderno prevê cerca de 12 espaçadores por m² (descartáveis) e 0,264 cunha por m² (reutilizável). Se a obra vai usar o sistema nivelador, e com porcelanato 60 × 60 quase sempre usa, esse material precisa entrar como item à parte, com cotação.

Também ficam de fora, porque são outros serviços com composição própria:

  • A base. O caderno pede base limpa, seca e curada. Contrapiso ou regularização é outro item da planilha.

  • Rodapé, soleiras e peitoris. Têm composições e unidades próprias (metro, não m²).

  • Impermeabilização em áreas molhadas, antes do piso.

  • Retrabalho. O caderno diz claramente que o esforço de refazer não está nos índices.

Esse é o tipo de lista que separa o orçamento que fecha do que vira aditivo no meio da obra.

 

Mão de obra e encargos na composição de custo unitário

A linha do azulejista diz R$ 41,92 por hora, e muita gente compara esse número com a diária combinada na obra. Não é a mesma coisa. No SINAPI, "com encargos complementares" quer dizer que a hora já inclui o salário, os encargos sociais e os custos que acompanham o trabalhador: alimentação, transporte, equipamentos de proteção, ferramentas manuais, exames médicos, seguro de vida e capacitação. É o custo de uma hora de trabalho para quem contrata, não o que o profissional recebe no fim do dia.

O coeficiente, 0,8038 hora por m², é a produtividade medida em obra, e inclui preparar a argamassa, assentar, nivelar, rejuntar e limpar. Ele é que dá o prazo: 100 m² de piso pedem uns 80 horas de azulejista, ou cerca de 10 dias de uma pessoa.

E se o preço da sua região for diferente? Um leitor comentou no post original que, no Rio, não se encontra mão de obra de porcelanato pelo valor do SINAPI. Isso acontece, e o caminho é o mesmo que vimos no episódio 4: manter os coeficientes da composição, trocar o preço da hora pelo valor que você realmente paga e registrar de onde veio esse valor. A composição continua servindo como estrutura; o preço passa a ser o seu.


Porcelanato ou cerâmica: a diferença é maior que a da peça

Uma comparação que ajuda muito na conversa com o cliente: a mesma área, de 5 a 10 m², com porcelanato (87262) ou com cerâmica esmaltada (87256), ambos 60 × 60 cm.

Item

Porcelanato 87262 (R$/m²)

Cerâmica esmaltada 87256 (R$/m²)

Diferença (R$/m²)

Peça (com perdas)

65,07

39,41

25,66

Argamassa colante

23,00 (AC III)

7,48 (AC I)

15,52

Rejunte

0,67

0,67

0,00

Azulejista

33,69 (0,80 h)

24,00 (0,57 h)

9,69

Servente

6,76

5,72

1,04

Total

129,19

77,28

51,91

Fonte: composições SINAPI 87262 e 87256 (AF_02/2023_PE), SINAPI/PR 08/2026, sem desoneração.

Na loja, a diferença entre as duas peças é de R$ 23,62 por m² (R$ 59,90 contra R$ 36,28). Instalado, a diferença passa a R$ 51,91, mais que o dobro. O porcelanato pede argamassa mais cara e leva cerca de 40% mais tempo para assentar. Quem decide trocar a cerâmica pelo porcelanato olhando só a etiqueta subestima a troca pela metade.

 

Como explicar isso ao cliente sem parecer que está inflando o preço

O cliente desconfia quando recebe um número fechado sem explicação. A composição resolve isso, porque transforma "confia em mim" em uma lista que ele mesmo consegue conferir. Funciona bem nesta ordem:

  1. Comece pelo que ele já sabe. Ele viu o porcelanato a R$ 59,90. Concorde: é esse o preço da peça.

  2. Mostre o que vai junto. Peças cortadas, argamassa, rejunte e as horas de quem assenta. A cascata deste post serve exatamente para isso.

  3. Use quantidades, não só reais. "Para os seus 40 m², são uns 44 m² de porcelanato, 18 sacos de argamassa e quatro dias de azulejista" convence mais do que qualquer percentual.

  4. Diga o que não está incluído. Contrapiso, rodapé, sistema nivelador. Explicar antes evita a sensação de cobrança extra depois.

  5. Cite a referência. "Usei a composição do SINAPI, que é a tabela oficial da Caixa, com os preços do Paraná de agosto de 2026" mostra que o número tem origem.

Um exemplo de como isso pode soar numa mensagem:

O porcelanato que você escolheu custa R$ 59,90 o m² na loja. Para cada m² de piso pronto, entram cerca de 1,09 m² de peça, por causa dos cortes, além de 9 kg de argamassa especial para porcelanato, rejunte e as horas do azulejista e do ajudante. Por isso o piso instalado fica em torno de R$ 129 o m², sem contar o contrapiso e o rodapé, que estão em itens separados. Posso te mostrar a composição aberta, se quiser ver linha por linha.

Ninguém precisa virar orçamentista para entender isso. Basta ver que cada real tem um nome.

 

Preço de loja é ponto de partida

O preço do material é só a primeira linha da composição. Perda, materiais complementares e mão de obra com encargos fazem o piso instalado custar mais que o dobro da peça, e o tamanho do ambiente e o tipo de placa mudam essa conta. Quem orça pelo preço da etiqueta erra para baixo; quem soma percentuais genéricos erra para cima. Quem lê a composição acerta e ainda consegue explicar.

Todos os números deste post são do SINAPI do Paraná, de agosto de 2026, sem desoneração. No próximo episódio, o assunto é justamente essa escolha: qual estado, qual mês, desonerado ou não, e o que fazer quando o SINAPI não tem o serviço. Se você já teve dificuldade para explicar o preço de um serviço ao cliente, conta nos comentários ou no Instagram como resolveu.

 

Referências

CAIXA ECONÔMICA FEDERAL. SINAPI: relatórios de custos de composições e cadernos técnicos de composições.

BUSCADOR SINAPI. Caderno técnico: revestimentos cerâmicos internos. Acesso em: out. 2026.

BUSCADOR SINAPI. Composições 87261, 87262, 87263 e 87256, SINAPI/PR 08/2026. Acesso em: out. 2026.

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