Composição de custo unitário: preço do material x serviço

Atualizado: 3 de out.
O cliente viu o porcelanato que quer a R$ 59,90 o m². Aí abre o orçamento e encontra o piso a R$ 129,19 o m². A primeira reação é quase sempre a mesma: "vocês estão cobrando o dobro?". E a resposta honesta é sim, o serviço custa mais que o dobro do material. Só que ninguém está inflando nada: a diferença tem nome, quantidade e preço, e está escrita na composição de custo unitário.
No episódio 4, aprendemos a ler uma composição do SINAPI linha por linha. Agora vamos usar essa leitura para responder à pergunta que todo cliente faz. Este é o episódio 5 da série Meu primeiro orçamento de obras, e o exemplo é um piso de porcelanato 60 × 60 cm, do preço de loja ao custo instalado, real por real.
O caso do porcelanato: de onde sai cada real
A composição que representa esse piso é a 87262: revestimento de piso com placas de porcelanato 60 × 60 cm, em ambientes de 5 a 10 m². No SINAPI/PR de agosto de 2026, sem desoneração, o porcelanato (insumo 45190) está a R$ 59,90 o m², e é esse o "preço de loja" do nosso exemplo. O serviço completo sai a R$ 129,19 o m².
Lendo a tabela de outra forma, os R$ 59,90 viram R$ 129,19 assim:

Perdas e recortes: + R$ 5,17. Para cada m² de piso pronto, entram 1,0864 m² de porcelanato. Os 8,64% a mais são as peças cortadas nos cantos, as quebradas e as que sobram.
Argamassa colante AC III: + R$ 23,00. São 9,13 kg por m², a argamassa indicada para porcelanato de formato grande. Sozinha, ela custa mais de um terço do preço do piso.
Rejunte: + R$ 0,67. É o menor item, mas é um material que o cliente quase nunca coloca na conta.
Mão de obra: + R$ 40,45. O azulejista e o servente, já com encargos, respondem por 31% do custo instalado.
Em 100 m² de piso, a conta do "preço de loja" daria R$ 5.990. A composição dá R$ 12.919: 108,64 m² de porcelanato, 913 kg de argamassa (uns 46 sacos de 20 kg), 14,1 kg de rejunte, 80,4 horas de azulejista e 20,6 horas de servente. É essa lista, e não o preço da caixa na loja, que vai para o pedido de compra e para o cronograma.
Perdas e recortes: por que se compra mais do que se assenta
O coeficiente do porcelanato é 1,0864, e não 1,0000, porque a obra não assenta só peças inteiras. Nos cantos, nas soleiras e em volta dos ralos, a peça é cortada e o pedaço que sobra raramente serve em outro lugar. Algumas quebram no transporte ou no corte. O SINAPI mediu essas perdas em obra e colocou o resultado no coeficiente. Foi exatamente a dúvida de um leitor no post original do Instagram, e a resposta é esta: os 8,64% já estão lá dentro.
O detalhe que pouca gente percebe é que essa perda muda com o tamanho do ambiente. O SINAPI tem três composições para o mesmo porcelanato 60 × 60, separadas pela área do cômodo:
Composição | Área do ambiente | Porcelanato (m² por m²) | Perda embutida | Azulejista (h/m²) | Servente (h/m²) | Custo (R$/m²) |
87261 | Menor que 5 m² | 1,1326 | 13,3% | 1,1136 | 0,2490 | 146,35 |
87262 | De 5 a 10 m² | 1,0864 | 8,6% | 0,8038 | 0,2064 | 129,19 |
87263 | Maior que 10 m² | 1,0690 | 6,9% | 0,5203 | 0,1674 | 114,99 |
Fonte: composições SINAPI 87261, 87262 e 87263 (AF_02/2023_PE), SINAPI/PR 08/2026, sem desoneração.

Num banheiro pequeno, quase toda peça encosta em parede, ralo ou bacia, e é cortada. O azulejista também passa mais tempo medindo e cortando do que assentando: 1,11 hora por m², o dobro do que gasta numa sala grande. O resultado é que o mesmo porcelanato, no mesmo mês e no mesmo estado, custa 27% mais por m² no lavabo do que na sala.
Duas consequências práticas para o orçamento:
Medir por ambiente vale a pena. Se a memória de cálculo do episódio 3 separa os pisos por cômodo, dá para usar a composição certa para cada um. Jogar a casa toda na 87263 deixa banheiros e lavabos subestimados.
Não some 10% por cima. A perda já está no coeficiente. Somar mais uma margem é contar perda duas vezes. Se a obra tiver algo que aumente a perda além do previsto, como paginação na diagonal, peças com veio que precisam casar ou reserva de peças do mesmo lote, isso é um ajuste justificado no coeficiente, registrado na memória, e não um percentual genérico.
Materiais que ninguém lembra
Quando o cliente pensa em piso, pensa na peça. A composição lembra do resto.
Argamassa colante AC III. São 9,13 kg por m², com as perdas da obra já incorporadas, e é o segundo maior custo de material: R$ 23,00 por m². O porcelanato absorve muito pouca água e, em formato grande, exige uma argamassa de maior aderência. Por isso a composição usa a AC III, que custa três vezes mais por quilo que a AC I usada na cerâmica comum.
Rejunte. São 0,141 kg por m², e o esforço de rejuntar, feito no mínimo 72 horas depois do assentamento, já está na produtividade do azulejista. Custa pouco, mas precisa estar no pedido de compra.
O que a composição não traz. Aqui está um detalhe que vale ouro para quem orça porcelanato. O caderno técnico da 87262 descreve o assentamento com espaçador nivelador e cunha, o sistema que mantém as peças grandes no mesmo plano. Mas os dois insumos estão excluídos da composição, registrados pela Caixa como pendência: o caderno prevê cerca de 12 espaçadores por m² (descartáveis) e 0,264 cunha por m² (reutilizável). Se a obra vai usar o sistema nivelador, e com porcelanato 60 × 60 quase sempre usa, esse material precisa entrar como item à parte, com cotação.
Também ficam de fora, porque são outros serviços com composição própria:
A base. O caderno pede base limpa, seca e curada. Contrapiso ou regularização é outro item da planilha.
Rodapé, soleiras e peitoris. Têm composições e unidades próprias (metro, não m²).
Impermeabilização em áreas molhadas, antes do piso.
Retrabalho. O caderno diz claramente que o esforço de refazer não está nos índices.
Esse é o tipo de lista que separa o orçamento que fecha do que vira aditivo no meio da obra.
Mão de obra e encargos na composição de custo unitário
A linha do azulejista diz R$ 41,92 por hora, e muita gente compara esse número com a diária combinada na obra. Não é a mesma coisa. No SINAPI, "com encargos complementares" quer dizer que a hora já inclui o salário, os encargos sociais e os custos que acompanham o trabalhador: alimentação, transporte, equipamentos de proteção, ferramentas manuais, exames médicos, seguro de vida e capacitação. É o custo de uma hora de trabalho para quem contrata, não o que o profissional recebe no fim do dia.
O coeficiente, 0,8038 hora por m², é a produtividade medida em obra, e inclui preparar a argamassa, assentar, nivelar, rejuntar e limpar. Ele é que dá o prazo: 100 m² de piso pedem uns 80 horas de azulejista, ou cerca de 10 dias de uma pessoa.
E se o preço da sua região for diferente? Um leitor comentou no post original que, no Rio, não se encontra mão de obra de porcelanato pelo valor do SINAPI. Isso acontece, e o caminho é o mesmo que vimos no episódio 4: manter os coeficientes da composição, trocar o preço da hora pelo valor que você realmente paga e registrar de onde veio esse valor. A composição continua servindo como estrutura; o preço passa a ser o seu.
Porcelanato ou cerâmica: a diferença é maior que a da peça
Uma comparação que ajuda muito na conversa com o cliente: a mesma área, de 5 a 10 m², com porcelanato (87262) ou com cerâmica esmaltada (87256), ambos 60 × 60 cm.
Item | Porcelanato 87262 (R$/m²) | Cerâmica esmaltada 87256 (R$/m²) | Diferença (R$/m²) |
Peça (com perdas) | 65,07 | 39,41 | 25,66 |
Argamassa colante | 23,00 (AC III) | 7,48 (AC I) | 15,52 |
Rejunte | 0,67 | 0,67 | 0,00 |
Azulejista | 33,69 (0,80 h) | 24,00 (0,57 h) | 9,69 |
Servente | 6,76 | 5,72 | 1,04 |
Total | 129,19 | 77,28 | 51,91 |
Fonte: composições SINAPI 87262 e 87256 (AF_02/2023_PE), SINAPI/PR 08/2026, sem desoneração.
Na loja, a diferença entre as duas peças é de R$ 23,62 por m² (R$ 59,90 contra R$ 36,28). Instalado, a diferença passa a R$ 51,91, mais que o dobro. O porcelanato pede argamassa mais cara e leva cerca de 40% mais tempo para assentar. Quem decide trocar a cerâmica pelo porcelanato olhando só a etiqueta subestima a troca pela metade.
Como explicar isso ao cliente sem parecer que está inflando o preço
O cliente desconfia quando recebe um número fechado sem explicação. A composição resolve isso, porque transforma "confia em mim" em uma lista que ele mesmo consegue conferir. Funciona bem nesta ordem:
Comece pelo que ele já sabe. Ele viu o porcelanato a R$ 59,90. Concorde: é esse o preço da peça.
Mostre o que vai junto. Peças cortadas, argamassa, rejunte e as horas de quem assenta. A cascata deste post serve exatamente para isso.
Use quantidades, não só reais. "Para os seus 40 m², são uns 44 m² de porcelanato, 18 sacos de argamassa e quatro dias de azulejista" convence mais do que qualquer percentual.
Diga o que não está incluído. Contrapiso, rodapé, sistema nivelador. Explicar antes evita a sensação de cobrança extra depois.
Cite a referência. "Usei a composição do SINAPI, que é a tabela oficial da Caixa, com os preços do Paraná de agosto de 2026" mostra que o número tem origem.
Um exemplo de como isso pode soar numa mensagem:
O porcelanato que você escolheu custa R$ 59,90 o m² na loja. Para cada m² de piso pronto, entram cerca de 1,09 m² de peça, por causa dos cortes, além de 9 kg de argamassa especial para porcelanato, rejunte e as horas do azulejista e do ajudante. Por isso o piso instalado fica em torno de R$ 129 o m², sem contar o contrapiso e o rodapé, que estão em itens separados. Posso te mostrar a composição aberta, se quiser ver linha por linha.
Ninguém precisa virar orçamentista para entender isso. Basta ver que cada real tem um nome.
Preço de loja é ponto de partida
O preço do material é só a primeira linha da composição. Perda, materiais complementares e mão de obra com encargos fazem o piso instalado custar mais que o dobro da peça, e o tamanho do ambiente e o tipo de placa mudam essa conta. Quem orça pelo preço da etiqueta erra para baixo; quem soma percentuais genéricos erra para cima. Quem lê a composição acerta e ainda consegue explicar.
Todos os números deste post são do SINAPI do Paraná, de agosto de 2026, sem desoneração. No próximo episódio, o assunto é justamente essa escolha: qual estado, qual mês, desonerado ou não, e o que fazer quando o SINAPI não tem o serviço. Se você já teve dificuldade para explicar o preço de um serviço ao cliente, conta nos comentários ou no Instagram como resolveu.
Série Meu primeiro orçamento de obras · Episódio 5 de 10 · Anterior: Episódio 4 — Como ler uma composição do SINAPI · Próximo: Episódio 6 — Qual referência usar: SINAPI, data-base e desoneração · Ver a série completa
Referências
CAIXA ECONÔMICA FEDERAL. SINAPI: relatórios de custos de composições e cadernos técnicos de composições.
BUSCADOR SINAPI. Caderno técnico: revestimentos cerâmicos internos. Acesso em: out. 2026.




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